Joanna Moura

É publicitária, escritora e produtora de conteúdo. Autora de "E Se Eu Parasse de Comprar? O Ano Que Fiquei Fora da Moda". Escreve sobre moda, consumo consciente e maternidade

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Meninos vestem calça, meninas tropeçam no vestido

Me pergunto quantas vezes tolhemos a liberdade delas em nome da beleza, da feminilidade, de parecerem bonecas

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Já passava das 21h quando terminamos o jantar e resolvemos andar pelo calçadão do Rio Vermelho, na orla soteropolitana até o largo onde fica a Igreja de Santana e o famoso Acarajé da Dinha. Os adultos andavam a passos vagarosos, saboreando a brisa salgada que vinha do mar e tentando apaziguar o estômago que há pouco havia recebido doses cavalares de dendê.

As crianças iam um pouco à frente, no passo acelerado da euforia de estar acordado bem depois da hora de dormir. A mais velha puxava o mais novo como quem puxa um bicho de pelúcia surrado, com os pés quase arrastando no chão.

Lá pelas tantas, encontraram uma elevação na calçada, dessas que servem para fazer manobras de skate. As crianças rapidamente trataram de se apossar daquela montanha de concreto estampada com desenhos em grafiti.

Meninos vestem calça, meninas tropeçam no vestido - Adobe Stock

Nós, os quatro adultos, vendo na excitação das crianças a possibilidade de se recostar na mureta por alguns instantes, fizemos exatamente isso. O mais novo, apesar das pernas curtas e rechonchudas de quem ainda não se tornou criança por completo, subia com facilidade pela elevação da calçada até o pico, onde um estreito terreno plano de madeira oferecia parada. Lá em cima, comemorava o feito e descia pelo outro lado correndo.

A mais velha, seguia a mesma rotina, porém, com mais dificuldade apesar de suas pernas compridas. É que, ao contrário de seu irmão, que trajava short e camiseta, ela estava de vestido e o tecido solto que terminava ali na altura dos joelhos atrapalhava a escalada.

Depois de vê-la quase tombar três vezes —duas na subida e uma na descida— e, vendo a hora dela bater de cara no concreto e perder os dentes antes do tempo, pedi que parasse a brincadeira por alguns instantes e usei meu elástico de cabelo para dar um nó na barra da saia, encurtando um pouco o comprimento.

Não era nem de longe a primeira vez que via um vestido entrar no caminho da liberdade de movimentos da minha filha. Aliás, muitas vezes já tinha eu mesma experimentado a mesma sensação, da roupa não estar a meu serviço. Pelo contrário, é como se eu estivesse a serviço dela. Eu que me aperto para caber, e ando a passos curtos porque a saia não tem elasticidade; eu que contenho os movimentos porque qualquer passo em falso pode comprometer minha integridade.

Mas tem coisas que a gente não percebe até ver acontecer com nossos filhos ou, nesse caso, com nossas filhas. E vê-la ficar para trás na brincadeira com seu irmão três anos mais novo de pernas curtas foi como vê-la ganhar menos do que seu colega medíocre que acha que é bom apenas porque ninguém nunca lhe disse o contrário.

A consciência dessa relação problemática entre meninas e vestidos surgiu na primeira vez que a vi tentar subir as escadas do escorrega enquanto pisava na barra da saia. Percebendo sua dificuldade, seu pai e eu nos olhamos e decidimos evitar vestidos dali em diante. Mas ela cresceu um pouco e encrencou que amava vestidos. Desde então me pergunto quando e como a semente desse desejo foi plantada em minha filha. Mas suspeito que a paixão tenha nascido dos elogios que recebia nas poucas ocasiões em que aparecia de vestido. "Tá tão linda!"

Me pergunto quantas vezes tolhemos a liberdade de meninas em nome da beleza, da feminilidade, de parecerem bonecas. E como cada vez que isso acontece estamos lhes dizendo que a vida é mesmo assim, que para chegarmos no alto de qualquer lugar é mesmo mais difícil, exige mesmo mais esforço.

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