Mariliz Pereira Jorge

Jornalista e roteirista

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Mariliz Pereira Jorge
Descrição de chapéu Todas violência

Morreu porque foi ao baile funk

Caso de jovem assassinada no Rio porque rejeitou traficante não é exceção

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Sther Barroso dos Santos, 22, foi espancada e deixada na porta de sua casa. Chegou morta ao hospital. Morreu porque se negou a sair de um baile funk com Bruno da Silva Loureiro, apontado como chefe da comunidade da Coreia, zona oeste do Rio. Segundo a família, por causa da recusa foi torturada. Segundo a opinião pública, se não estivesse num lugar frequentado por traficantes, estaria viva.

É a mesma lógica perversa sobre as vítimas de estupro. Se não fosse o tamanho da saia, do decote, do tipo da dança, do ambiente, do horário, da companhia, não teriam sido humilhadas, brutalizadas, marcadas para sempre. É a mesma engrenagem macabra que alimenta o sentimento de posse naturalizado por séculos que fizeram da mulher propriedade masculina no inconsciente coletivo.

Uma jovem está posando em frente a uma cerca. Ela usa um top preto com detalhes e uma saia de couro preta. A jovem segura um copo e faz um sinal de paz com a mão. Ao fundo, há uma parede e uma estrutura que parecem ser de uma área urbana.
Sther Barroso dos Santos, 22, morta após ir a um baile funk no Rio - Reprodução/Stéphane Couto no X


Não há diferença entre a morte de Sther, que disse não ao traficante, Juliana, que foi espancada pelo namorado, e a nutricionista que teve as nádegas apalpadas por um desconhecido quando deixava o elevador. Ou ainda aquelas que são assediadas no transporte público. Ou são mutiladas, queimadas, executadas ao pedir a separação. A geografia e os cenários mudam, o roteiro é sempre o mesmo: a convicção de que a mulher deve obediência ao homem.

Não é sobre funk, sobre roupa, sobre o lugar onde ela estava. É sobre a crença de que a vida feminina é condicional: depende do horário, do comportamento, do aval masculino. Cultura do estupro e cultura de posse —termo que passei a usar— não são jargões acadêmicos, são realidades que se impõem no cotidiano, em cada esquina, em cada "não".

O traficante que mandou matar Sther por ter sido rejeitado não é uma exceção, é fruto de uma sociedade em que o homem acha que pode decidir sobre a roupa, as amizades, o sim e o não de uma mulher. O feminicídio não é aberração isolada: é consequência de uma dinâmica que vai do assobio na rua ao tapa, da piada de mau gosto ao controle psicológico.

A mudança só virá quando todos os homens entenderem que são parte do problema e da solução. Sem isso, seguiremos repetindo a mesma tragédia com novos nomes nas manchetes.

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