Para muitas famílias, o processo de matricular as crianças na escola pode ser bastante custoso. No caso da rede pública de ensino, o custo não é necessariamente financeiro, mas logístico. Pais e responsáveis devem estar atentos a prazos, locais e processos. Em muitos casos, é preciso ser rápido para conseguir uma vaga em uma escola próxima de casa, que ofereça segurança e facilidade de deslocamento. Fatores como a reputação da escola, qualidade do ensino, atividades extracurriculares e suporte a necessidades especiais também entram na equação, além das preferências dos jovens.
Na rede municipal da cidade do Recife, o sistema de matrícula passou a ser digitalizado, alinhando-se a outros serviços ofertados pela prefeitura. Desde 2022, as famílias utilizam uma plataforma online para selecionar e ordenar as creches e escolas de sua preferência. A alocação dos estudantes é feita com base em critérios pré-estabelecidos e na disponibilidade de vagas.
Uma das vantagens do sistema centralizado é permitir que a família analise as opções disponíveis. Talvez exista uma escola acessível que antes não conheciam, ou uma instituição que atenda todas as etapas de ensino, permitindo que irmãos frequentem o mesmo local. O sistema facilita o acesso a informações sobre as características das escolas, ajudando as famílias a tomar decisões mais informadas.
Mas como o acesso a informações sobre a qualidade das escolas influencia essas decisões? Você matricularia seu filho em uma escola com resultados insatisfatórios, caso houvesse alternativas? Identificar quais critérios são relevantes para a decisão pode ajudar as redes a desenharem modelos mais eficientes de alocação.
Para testar se a informação sobre a qualidade da escola afeta a escolha das famílias, a rede municipal do Recife, em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, realizou um experimento no sistema de matrícula online. Os primeiros resultados do estudo mostram que as famílias tendem a priorizar escolas com melhores resultados, desde que estejam localizadas perto de casa.
O experimento consistiu em alterar a ordem de apresentação das escolas no sistema online, destacando aquelas com maior Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), métrica que combina proficiência média e taxa de aprovação. Algumas famílias visualizaram primeiro as escolas com maior Ideb, enquanto outras viram a ordem padrão, baseada na proximidade de residência. A hipótese era que, ao serem expostas a informações sobre a qualidade das escolas, as famílias seriam estimuladas a optar por aquelas com melhor desempenho.
Contudo, na média, não foram encontrados efeitos. A escolha só é afetada quando existem boas opções de escolas próximas de casa; quem mora longe dessas opções não alterou suas preferências. O efeito foi mais evidente entre famílias de renda mais alta, que conseguiram utilizar melhor a informação fornecida.
É papel do poder público definir métricas para medir a qualidade da educação e disseminá-las para embasar as decisões sobre a educação escolar. Isso pode ajudar a reduzir desigualdades de oportunidade no acesso às escolas. Mas só informar não é suficiente. No dia a dia familiar, a proximidade parece ser o fator mais relevante no processo de escolha. A informação é essencial, mas, se não houver escolas de qualidade bem distribuídas, não vai resolver sozinha as desigualdades no sistema educacional.
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