Priscilla Bacalhau

Doutora em economia, consultora de impacto social e pesquisadora do FGV EESP CLEAR, que auxilia os governos do Brasil e da África lusófona na agenda de monitoramento e avaliação de políticas

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Priscilla Bacalhau
Descrição de chapéu Todas alimentação

O biscoitinho das crianças

É importante reduzir o consumo de alimentos processados

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Segundo o ditado, tirar doce da boca de uma criança é algo fácil. Isso pode até ser verdade no sentido literal, mas, uma vez que crianças estejam acostumadas com açúcar e produtos cheios de aditivos, não será tão fácil assim modificar seus hábitos alimentares.

A medida anunciada pelo governo federal na última semana, que limita a quantidade de produtos processados e ultraprocessados nas escolas públicas, é um passo importante nessa direção. Em 2020, estabeleceu-se um limite máximo de 20% para esse tipo de produto no cardápio das escolas públicas.

Agora a nova resolução reduz o limite para 15%, com previsão de cair para 10% no próximo ano. Ou seja, gradualmente, as escolas públicas em todo o país já devem estar no caminho de adaptar seus cardápios em direção à oferta de alimentos mais saudáveis.

E por que isso importa? Em primeiro lugar, os produtos ultraprocessados são desenvolvidos para serem viciantes. Para identificá-los, basta olhar os rótulos: são produtos totalmente industrializados, com aditivos químicos de nomes difíceis que não conseguimos reproduzir na cozinha de casa. Os biscoitos e refrigerantes entram nessa categoria. Já os alimentos processados são aqueles industrializados com adição de sal, açúcar ou um ingrediente para aumentar a durabilidade. Estes últimos podem ser convenientes para o ritmo de vida moderno e o trabalho das merendeiras, mas não devem ser a base da alimentação.

Limitar os ultraprocessados é crucial, porque a infância é uma fase de formação de hábitos alimentares. Uma vez que a criança se habitua a esses produtos, livrar-se deles no futuro será muito difícil —e, em muitos casos, pode ser tarde demais para evitar as consequências.

Eduardo Knapp/Folhapress

Alguns efeitos dos ultraprocessados já são bem documentados. Estudo realizado em dez países europeus, publicado neste ano pela The Lancet, acompanhou 400 mil pessoas durante 16 anos e encontrou uma associação positiva entre o consumo de ultraprocessados e a mortalidade por todas as causas, doenças circulatórias e doenças digestivas. Nos EUA, estudo mostrou que a taxação de bebidas açucaradas levou à redução do índice de massa corporal em jovens adultos.

Em crianças, pesquisas associam consumo de ultraprocessados a sobrepeso ou obesidade na primeira infância e indicam que a exposição precoce é um forte preditor do seu consumo na idade escolar. Além disso, estudos brasileiros associam o aumento na compra de produtos da agricultura familiar por escolas públicas a uma relevante melhora no desempenho acadêmico dos alunos.

Essas evidências reforçam a importância de políticas públicas voltadas a reduzir a exposição da população aos ultraprocessados, promovendo benefícios à saúde pública. Garantir uma alimentação mais saudável nas escolas pode trazer impactos positivos profundos para o desenvolvimento de crianças e adolescentes, considerando que muitas delas realizam uma ou duas refeições por dia nesse ambiente.
Porém a tarefa não é simples. Os ultraprocessados contam com estratégias de marketing agressivas, custos reduzidos e uma logística altamente eficiente a seu favor.

Tirar o biscoitinho das crianças não é fácil, mas as vantagens justificam o esforço.

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