No café da manhã do hotel, a moça chega com a mãe e o marido. A única mesa disponível é ao meu lado, mas, ao me ver, a jovem senhora faz cara de apendicite supurada, curva-se feito um bicho das trevas e sai em disparada. Sua mãe e seu marido não entendem prontamente; contudo, dividem, cúmplices, um olhar de "velho cansaço" —lembrando que aceitaram, há tempos, oxidar suas almas junto àquela mulher.
Foi comigo isso? Não pode ser. Toda ególatra é um tanto persecutória, mas eu já estou velha para me comprazer com as críticas que sempre me atiçam internamente como se enaltecimentos fossem. Foi comigo? Não posso deixar o desprazer tomar conta de mim desse jeito tão delicinha. Foi comigo?
Arranjam uma mesa bem longe de mim e, de lá, ela me encara fixamente com sua face retorcida. Concluo que a comensal obcecada em me olhar feio talvez seja apenas obsessiva e feia, e que nada disso tenha a ver com a minha serena pessoa, isolada nas montanhas depois de quinze anos sem tirar míseros três dias de férias. Ou será que a coisa é comigo?
Ela parece o cruzamento de um cachorro pequinês com um porquinho doméstico —mas eu jamais diria isso sobre uma mulher. Ainda que essa mereça, ainda que algumas mulheres desafiem a sororidade até de Nossa Senhora Aparecida, eu me contenho.
Faíscas de vileza, transtorno, delusão e zica atravessam a íris da mulher e depois o salão ensolarado. Ela é especialmente intensa com leguminosas orgânicas que chegam depois de mais de 24 horas em tigelas com água —e as ataca em descontrole infantilóide. Pessoas boas não querem que a intragável peide para além da sua energia podre, piorando infinitamente a insalubridade do universo.
Horas depois, sem que eu fosse notada, pude presenciá-la em um momento de júbilo e relaxamento na piscina. E ela sorria. Era a mesmíssima cara retorcida de apendicite supurada pós-cruzamento de um cachorro pequinês com porquinho doméstico —porém, ela era simpática e sorria. Então era comigo.
Uma vez, uma psicanalista me perguntou se eu era mais vingativa ou mais escritora. Eu respondi que dava no mesmo. Isso faz vinte anos. Desde então, eu amadureci bastante, mas glória às deusas, não o suficiente.
A porquinho com cachorro com apendicite reza antes de comer e antes de dormir, visita as igrejas próximas, medita, anda pelo jardim de roupão branco saudando a natureza (é negacionista da crise climática, venho a saber depois), pede a bênção da mãe, chama o marido de "bem", mas —você já adivinhou, claro— é só mais uma fascista em pele de pequinês com suíno.
Ela faz amigas sem saber que as amigas são minhas amigas. E então eu descubro que ela está indo de hóspede em hóspede e dizendo a seguinte frase: "Não ande com aquela desgraçada ali, ela é contra o Bolsonaro, ela é aquela do texto do Xandão." Voltamos ao primário instantaneamente. Mas eu não estou isolada na hora do recreio. Os hóspedes, mesmo os claramente de direita, estão preocupados com a saúde mental da vizinha de quarto. Começa uma espécie de jogo de adivinhação pelo nome da sua doença. Eu sou contra. Defendo as doenças mentais e não quero ver nenhuma associada a pequinês com suíno. O nome do que ela tem é fascismo mesmo. E não adianta pedir pra mudar de lugar ou deixar as leguminosas de molho. O fascismo segue muito perto —e fede mais.
Peço perdão a todo tipo de cachorro de pequeno porte e porcos domésticos. Vocês têm alma.
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