Vera Iaconelli

Diretora do Instituto Gerar de Psicanálise, autora de “Manifesto Antimaternalista” e “Felicidade Ordinária”. É doutora em psicologia pela USP

Salvar artigos

Recurso exclusivo para assinantes

assine ou faça login

Vera Iaconelli
Descrição de chapéu Todas Mente

Governo comete abandono de menor

Há tempos sabemos que as famílias não têm como enfrentar sozinhas o apelo aditivo das redes

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

É muito conveniente a um Estado que se pretende mínimo atribuir aos pais toda a responsabilidade pelo que se passa com os menores de idade. A manobra visa desincumbir o governo do ônus de cuidar da infância, fazendo crer que a próxima geração é assunto privado. Se algo der errado, sempre se pode dizer que houve negligência de pais e responsáveis.

É assim com as mães paupérrimas e sem moradia que perdem o poder familiar para o governo quando seus filhos sofrem os efeitos da fome e da falta de habitação que o Estado deveria remediar. Vale assistir ao último filme de Anna Muylaert, "A Melhor Mãe do Mundo", por seu enorme potencial de falar às massas, na medida em que a protagonista, a excepcional Shirley Cruz, representa uma parte considerável da sociedade brasileira.

Trata-se de uma mulher negra, submetida à violência doméstica, iletrada mãe de duas crianças, catadora de recicláveis. O enredo perde o caráter lacrimejante pela forma como a diretora conduz a narrativa, sem explorar as violências.

myboys.me - stock.adobe.com Adob

Se o grande fantasma da sociedade sempre foi a exposição das crianças ao espaço público sem proteção, hoje estamos cientes de que o maior perigo, por ser o mais banal e irrefreado, está no quarto delas, onde se fecham para acessar a internet. Daí a comoção da série inglesa "Adolescência", cujos efeitos ainda se fazem ouvir no governo e nas escolas do Reino Unido, que passaram a discutir consentimento no currículo.

Há mais de uma década se sabe do caráter nefasto das redes sobre o psiquismo, o corpo, a vida social e a sexualidade das crianças. As pesquisas neurocientíficas, psiquiátricas, psicológicas, endocrinológicas e pedagógicas revelam a deturpação do desenvolvimento de toda uma geração, mas foi preciso que o influencer Felca fizesse um vídeo para que o rebuliço acontecesse.

Podemos interpretar esse fenômeno como o ponto culminante de um processo de saturação das provas recolhidas, chegando a uma massa crítica capaz de sensibilizar até o Congresso mais fisiológico da história. Pode-se interpretar também como um movimento mais insidioso, no qual ganhos políticos servem de enzima para ações necessárias e justificáveis. É mais plausível que um não vá sem o outro e que aquilo que todos sabemos e denunciamos há anos só encontre voz quando a vantagem política se apresenta como vontade política. Isso não tira o mérito de Felca, cuja persistência, ausência de histrionismo e linguagem acessível ao leigo fizeram com que cair nas graças do público em geral.

Há tempos sabemos que as famílias não têm como enfrentar sozinhas o apelo aditivo das redes, seu modelo de negócio agressivo e inescrupuloso, e que não presta contas à sociedade do que faz. Ainda assim, alguma coisa foi necessária para que esse saber levasse à comoção geral e à decisão certa.

Abandono de incapaz é uma figura jurídica imputada aos responsáveis que não cumprem seu dever de cuidar e proteger, por exemplo, das crianças, deixando-as à própria sorte. E é isso que os governos fazem quando fingem não saber de sua responsabilidade para com a regulamentação das big techs. Se existem outros ganhos políticos que levaram a fichar a cair só agora, eles são secundários. Al Capone foi preso por evasão fiscal. Sua retirada de circulação, ainda que por caminhos insuspeitos, só trouxe ganhos à sociedade.

LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Leia tudo sobre o tema e siga:

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.