É muito conveniente a um Estado que se pretende mínimo atribuir aos pais toda a responsabilidade pelo que se passa com os menores de idade. A manobra visa desincumbir o governo do ônus de cuidar da infância, fazendo crer que a próxima geração é assunto privado. Se algo der errado, sempre se pode dizer que houve negligência de pais e responsáveis.
É assim com as mães paupérrimas e sem moradia que perdem o poder familiar para o governo quando seus filhos sofrem os efeitos da fome e da falta de habitação que o Estado deveria remediar. Vale assistir ao último filme de Anna Muylaert, "A Melhor Mãe do Mundo", por seu enorme potencial de falar às massas, na medida em que a protagonista, a excepcional Shirley Cruz, representa uma parte considerável da sociedade brasileira.
Trata-se de uma mulher negra, submetida à violência doméstica, iletrada mãe de duas crianças, catadora de recicláveis. O enredo perde o caráter lacrimejante pela forma como a diretora conduz a narrativa, sem explorar as violências.
Se o grande fantasma da sociedade sempre foi a exposição das crianças ao espaço público sem proteção, hoje estamos cientes de que o maior perigo, por ser o mais banal e irrefreado, está no quarto delas, onde se fecham para acessar a internet. Daí a comoção da série inglesa "Adolescência", cujos efeitos ainda se fazem ouvir no governo e nas escolas do Reino Unido, que passaram a discutir consentimento no currículo.
Há mais de uma década se sabe do caráter nefasto das redes sobre o psiquismo, o corpo, a vida social e a sexualidade das crianças. As pesquisas neurocientíficas, psiquiátricas, psicológicas, endocrinológicas e pedagógicas revelam a deturpação do desenvolvimento de toda uma geração, mas foi preciso que o influencer Felca fizesse um vídeo para que o rebuliço acontecesse.
Podemos interpretar esse fenômeno como o ponto culminante de um processo de saturação das provas recolhidas, chegando a uma massa crítica capaz de sensibilizar até o Congresso mais fisiológico da história. Pode-se interpretar também como um movimento mais insidioso, no qual ganhos políticos servem de enzima para ações necessárias e justificáveis. É mais plausível que um não vá sem o outro e que aquilo que todos sabemos e denunciamos há anos só encontre voz quando a vantagem política se apresenta como vontade política. Isso não tira o mérito de Felca, cuja persistência, ausência de histrionismo e linguagem acessível ao leigo fizeram com que cair nas graças do público em geral.
Há tempos sabemos que as famílias não têm como enfrentar sozinhas o apelo aditivo das redes, seu modelo de negócio agressivo e inescrupuloso, e que não presta contas à sociedade do que faz. Ainda assim, alguma coisa foi necessária para que esse saber levasse à comoção geral e à decisão certa.
Abandono de incapaz é uma figura jurídica imputada aos responsáveis que não cumprem seu dever de cuidar e proteger, por exemplo, das crianças, deixando-as à própria sorte. E é isso que os governos fazem quando fingem não saber de sua responsabilidade para com a regulamentação das big techs. Se existem outros ganhos políticos que levaram a fichar a cair só agora, eles são secundários. Al Capone foi preso por evasão fiscal. Sua retirada de circulação, ainda que por caminhos insuspeitos, só trouxe ganhos à sociedade.
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