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Além da saúde mental, ato de perdoar pode melhorar problemas físicos; entenda

Para especialistas, se livrar do mal que sofreu é um antídoto; Dia Nacional do Perdão é celebrado neste sábado (30)

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São Paulo

Aos quatro anos, a analista de redes sociais Luana Cianci, 29, descobriu a psoríase. O início da doença coincidiu com a separação dos pais e o segundo casamento de sua mãe —desta vez, com um homem violento. As agressões eram constantes.

"Meu pai sempre foi presente, um herói para mim, e até hoje é. Então, a separação foi um momento muito traumático".

O diagnóstico de psoríase foi confirmado pelo dermatologista. O tratamento prescrito pelo médico não foi seguido na época. O lar conturbado cheio de brigas e violência era o termômetro da doença, que oscilava entre piora e melhora, de acordo com a periodicidade das agressões.

A imagem mostra uma mulher sorridente, com cabelo longo e liso, vestindo um vestido laranja com mangas bufantes. Ela está sentada, com uma mão apoiada na perna e a outra na coxa, olhando para a câmera. O fundo é de uma cor azul sólida, criando um contraste com o vestido.
A analista de redes sociais, Luana Cianci, 29, de Guarulhos (Grande São Paulo), que perdoou os parentes que a faziam sofrer - Jardiel Carvalho/Folhapress

"A psoríase era motivo para a minha mãe chamar o meu pai, que é farmacêutico. Eles sempre precisavam se falar por minha causa e isso gerava ciúmes", explica Luana.

Com o agravamento da doença e da violência, aos 9 anos, Luana, a mãe e a irmã fugiram para o Ceará. Foi um período de adaptação difícil. Na época, as lesões que haviam espalhado para 100% do corpo, começaram a melhorar sem tratamento.

"Meu padrasto foi atrás da gente. Minha mãe voltou a morar junto com ele e eu também. Os episódios de violência voltaram. Aos 13 anos, tive uma piora e continuei sem tratamento. Minha mãe me mandou de volta para São Paulo. Passei um tempo na casa do meu pai e da minha avó. Comecei a fazer o tratamento que sigo até hoje", conta Luana.

Aos 22 anos, Luana tentou suicídio e ficou 25 dias internada na ala psiquiátrica do Hospital Municipal Pimentas, em Guarulhos (Grande São Paulo), período que considera um divisor de águas em sua vida.

"Passei a entender que a psoríase é uma inflamação e não só uma questão emocional. Fiz tratamentos com psiquiatras e psicólogos e entendi que precisava perdoar. A pessoa que eu sou hoje foi devido aos traumas que passei lá atrás."

"Precisei perdoar o meu passado para entender a doença. Esse perdão inclui minha mãe, meu padrasto —que já é falecido— e as pessoas que me fizeram mal. Sofria bullying e apanhava na escola por causa da minha condição. Era uma criança fracassada de pensamento, de recursos, de tudo... Um corpo sem amor no coração. Só sentia raiva e achava que tudo aquilo era culpa dos outros. O perdão melhorou minha condição e hoje a doença está totalmente controlada."

Neste sábado (30) é celebrado o Dia Nacional do Perdão.

A psoríase é uma doença inflamatória, crônica, não contagiosa, imunomediada (relacionada a fatores imunológicos) que afeta a pele na forma de lesões avermelhadas e que descamam. Às vezes, são localizadas no couro cabeludo, nos cotovelos, joelhos e pernas. Pode aparecer como placas extensas pela pele, segundo a dermatologista da SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia), Renata Magalhães.

Segundo a médica, podem existir fatores pontuais que abalam e contribuem para uma piora emocional, levando ao agravo da condição inflamatória e da doença da pele.

"O quanto o emocional influencia nas doenças inflamatórias, como a psoríase, isso é difícil de medir. Mais de 60% dos pacientes relatam que a doença começou ou se agravou por problemas emocionais relacionados ao estresse, à ansiedade, à depressão ou fatores agudos que realmente traumatizam a trajetória da vida da pessoa, como situações de violência e mortes na família."

"Entender melhor a relação dela com os outros e perdoar o contexto em que viveu deve ter se traduzido numa calmaria desses fatores emocionais que podem alimentar o quadro inflamatório. Acho que o melhor entendimento das experiências que essa pessoa viveu, de como influenciou a doença, deve ter ajudado. Faz parte do cuidado holístico que a pessoa deve ter consigo, como viver em paz, ter uma qualidade de vida melhor, um estado psicológico mais calmo. Isso provavelmente se traduz em benefício para a doença inflamatória e a de pele, por conseguinte", afirma Renata.

Disposição ao perdão protege a saúde do coração

A disposição ao perdão está associada a menor ocorrência de doenças cardiovasculares. Já existem dados na literatura médica que comprovam a afirmação.

Um estudo apresentado em 2024 na Sessão Científica Anual do American College of Cardiology e no Congresso Brasileiro de Cardiologia avaliou o estímulo a sentimentos como perdão, gratidão, otimismo e propósito de vida, e qual a influência da intervenção na hipertensão e na função endotelial.

A pesquisa, com cem hipertensos, do Ambulatório da Unidade de Hipertensão da UFG (Universidade Federal de Goiás), mostrou melhora da pressão arterial sistólica de consultório (a máxima), de 7.6 milímetros de mercúrio, da pressão sistólica central (aórtica) —a medida na aorta—, e da dilatação fluxo-mediada da artéria braquial, que é uma avaliação do endotélio (camada interna dos vasos sanguíneos).

De acordo com Álvaro Avezum, diretor científico do Demca (Departamento de Espiritualidade e Medicina Cardiovascular) da SBC (Sociedade Brasileira de Cardiologia) e diretor de cardiologia do Hospital Oswaldo Cruz, a lembrança de uma situação não perdoada acelera a produção de adrenalina e de cortisol, hormônios responsáveis pelo aumento da frequência cardíaca, da pressão arterial, coagulação do sangue nas artérias e vasoconstrição. Quando o fato é relembrado com regularidade, aumenta o risco de um ataque cardíaco.

"Se a pessoa é obesa, sedentária, tem alimentação rica em sal ou em açúcar, por uma consequência natural, aumenta a chance de hipertensão, de diabetes. Aí se você acrescenta mais um fator que mantém uma produção exagerada de adrenalina e cortisol", comenta o cardiologista.

Na rotina do consultório, a psicóloga e psicanalista Suzana Avezum trabalha a questão da mágoa. "O paciente chega em sofrimento emocional, mental e você percebe que na base daquilo tem ressentimento. Freud postula que o registro do tempo não é do inconsciente. Lembre-se de uma coisa que você viveu com cinco anos, que te marcou. Se foi positiva, toda vez que lembrar daquele evento, você vai ficar feliz; se foi negativa, vai sofrer, ou seja, o tempo não passou. É como se tivesse acontecido ontem", diz a psicóloga.

Para Suzana, o primeiro passo é entender que o perdão é um antídoto. O segundo é saber o que é perdoar. Na corrente da psicologia positiva, perdoar é abdicar de um sentimento negativo, de raiva e vingança contra o ofensor.

"Você tem todo o direito de estar brava, com ódio, mas vai abrir mão disso. Sabe o famoso deixa para lá? É assim que funciona o perdão. Falo muito para os meus pacientes: esse sofrimento é seu. A outra pessoa não tem nem ideia de que você está sofrendo desse jeito. E se você perdoar, a pessoa também não vai saber. O perdão não é para o outro, mas para você se sentir melhor, se livrar da carga negativa e ser mais feliz", comenta Suzana.

Em sua dissertação de mestrado, baseada na pesquisa Avaliação da Disposição para o Perdão em Pacientes com Infarto Agudo do Miocárdio, Suzana comparou dois grupos: no primeiro, pessoas que haviam sofrido infarto; no segundo, não havia histórico de patologia cardiovascular.

No primeiro, os integrantes estavam menos dispostos a perdoar e no outro, a disposição ao perdão era prevalente. Para a psicóloga, quem não conseguir perdoar pode pedir ajuda a um religioso de confiança, a um amigo e fazer terapia. "Esquecemos que precisamos pedir ajuda. Sozinhos não conseguimos tudo."

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