A história pode ser contada por meio de camadas geológicas, artefatos em cerâmica encontrados debaixo da terra, cartas, letras de música. Agora, a modernização de Curitiba na primeira metade do século 20 é investigada por meio de papéis de bala.
O livro "As Balas Zequinha e a Curitiba de Outrora", da historiadora Camila Jansen de Mello Santana, parte do embrulho de um doce muito popular na época, ilustrado com um palhaço que aparece em 200 situações diferentes —exercendo profissões, encarnando outras etnias, vivenciando esportes e lazer, entre outros.
A população logo começou a colecionar as chamadas "figurinhas", apesar de não serem autocolantes, e elas passaram a encher o tempo livre de crianças por várias gerações.
São elas que ajudam a relatar, em 300 páginas recheadas de ilustrações e outras referências gráficas, as transformações da capital paranaense, que passara em 1853 de província a capital com preocupações de saneamento, chegada de imigrantes e suas diferentes culturas.
O livro é resultado da pesquisa de doutorado da curitibana, que é professora da Universidade Estadual de Ponta Grossa. A obra foi selecionada como melhor tese de história cultural da Associação Nacional dos Professores Universitários de História, e concorre ao Prêmio Jabuti Acadêmico.
Num contexto de fortalecimento da imprensa e da tipografia, a fábrica A Brandina adaptou um palhaço paulistano, o Piolim, para envolver um doce que, de acordo com testemunhas, não era lá muito bom, e depois regionalizou a figura.
Apesar de as balas terem circulado por várias décadas, e depois a ilustração ter virado figurinha colecionável em campanha fiscal do governo do estado, o livro de Camila faz um recorte específico, entre 1929 e 1948. Tempos de muita mudança.
"Qualquer sujeito é capaz de ler uma imagem. A arte permite acessar um discurso que chegava a um público muito grande, era para vender bala, mas a figurinha acabou se tornando um produto mais importante do que o original —muita gente pegava a bala e jogava fora, mas colecionava as figurinhas", conta a professora.
Entre as fontes de pesquisa estão as revistas ilustradas que borbulhavam em Curitiba naquelas duas décadas, com destaque para a coluna "Gosto e Não Gosto", da revista A Cidade, em que corria solto o julgamento de modos e costumes mutantes, e a sugestiva "A Bomba". O Paraná foi pioneiro na arte do humor satírico, e esse material ajudou a compreender o contexto estudado.
Em sua pesquisa, Camila se surpreendeu com o impacto trazido por algumas inovações —é o caso do automóvel, visto desde cedo como arma mortífera, dados os acidentes corriqueiros nas então pacatas ruas. Homem de seu tempo, Zequinha surge como motorneiro de bonde e chauffeur, mas também conduzindo carroça, e cada representação gráfica é analisada no livro.
Seus momentos de lazer contam outras histórias riquíssimas —ficamos sabendo onde a população passava os domingos, no Passeio Público, então reduto de pessoas elegantes e local para apresentação de qualquer novidade, como patinação e voo de balão.
"Urbanizar, na época, significava controlar a natureza. Foi uma época em que os rios foram canalizados para evitar enchentes, por exemplo. Curitiba tinha muito brejo, e por isso aparecem sapos nas figurinhas", conta Camila. Nas charges humorísticas, que foram pesquisadas e inseridas no livro como comparação a respeito dos temas importantes no período, não faltam críticas às calçadas e ruas enlameadas da cidade.
O rico trabalho de pesquisa permite saber também que a figura do Zé Povo era frequente nos jornais de início de século no Brasil, representando o brasileiro já não mais como um indígena, mas como um trabalhador que luta para sobreviver.
A historiadora identificou inúmeros diálogos com outros cartunistas do início do século 20, como o sueco Oscar Jacobsson, cujo personagem Adamson era frequente nas tirinhas dos jornais brasileiros —na figurinha do Zequinha de número 52, o palhaço surge com cartola que se transforma em casa de passarinho, muito semelhante a uma ilustração do desenhista europeu.
E assim a autora vai, página a página, ladeando figurinhas e referências de época que permitem compreender a origem e as críticas por trás do papel de bala.
Chama a atenção a seção de violência, pois o personagem é tanto gangster, gatuno, condenado e enforcado, quanto se suicida e é oprimido pelo poder público. Lembrando que eram doces para crianças, num tempo de filtros muito diferentes dos atuais.
A autora lembra ainda diversas ausências, como representações de indígenas e negros. "Entre os quadros em que Jean-Baptiste Debret retratou o Brasil, temos a primeira imagem conhecida de Curitiba datada de 1827, e nela há um único personagem, um negro. Já nas figurinhas do Zequinha, o negro só aparece no contexto de selvagem. Esse é um documento histórico do apagamento da negritude que foi realizado aqui", afirma.
Para os críticos que não consideram uma pesquisa sobre figurinhas algo sério, ela responde: "A arte me permite adentrar enquanto historiadora um universo de sensibilidade, entender um pouco do que é representado daquela sociedade através de imagens que tinham muito significado."
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