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Poemas de Lana Del Rey têm clichês juvenis e problemas de tradução

'Violet Faz a Ponte sobre a Grama' expande a melancolia pop da cantora americana para poesia, mas edição brasileira atrapalha

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Ana Luiza Rigueto

Poeta e crítica literária, é mestre em ciência da literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora de 'Entrega em Domicílio'

Violet Faz a Ponte sobre a Grama

  • Preço R$ 79,90 (160 págs.)
  • Autoria Lana Del Rey
  • Editora Belas-Letras
  • Tradução Alana Carolina Martins

Lana Del Rey é o nome artístico de Elizabeth Woolridge Grant, cantora americana que nasceu em 1985 e cuja carreira despontou no início da década passada. É dona de hits como "Born to Die", "Ride", "Summertime Sadness" e outras canções cheias de melancolia, algum prazer triste e muitos amores intensos que acabam.

A cantor e compositora Lana Del Rey - Joe Camporeale/USA TODAY Sports via Reuters Con

Sua estética artística é composta de uma performance de mulher sensual e corretamente bela, como que saída dos anos 1950 ou 1960, com homens mais velhos ou badboys bonitões ao redor. Esse imaginário também se reproduz em seu primeiro e único livro de poemas, "Violet Faz a Ponte sobre a Grama", lançado em 2020 nos Estados Unidos.

Na época, Lana chegou a dizer que a publicação seria artesanal e custaria um dólar. Mas a editora Simon & Schuster comprou os direitos do livro, e ele foi para as lojas com preço convencional. Enfim, em 2025, a versão em português chega ao Brasil pela Editora Belas Letras, com tradução de Alana Carolina Martins.

A edição reproduz a publicação estadunidense: a mesma capa da artista Erika Sea Lears, o título em dourado e muitas fotografias —em grande parte de autoria da própria compositora— intercaladas com os 35 textos com fonte tipo máquina de escrever.

Os elementos gráficos prometem uma edição bem amarrada, mas, quando nos detemos nos poemas, algo parece faltar.

Em versos de "Nos Apartamentos de Melrose", um dos muitos poemas ambientados na Califórnia, lemos o seguinte. "O que será preciso para que eu sinta que o trem não vai/ fugir comigo amarrada como a heroína triste presa ao último/ vagão/ o que será preciso para eu não precisar de você/ para que eu possa ter você apenas por diversão/ e por quem você realmente é".

Além de a palavra "que" aparecer três vezes só no primeiro verso, e "vagão" junto de "diversão" empobrecer o ritmo, as imagens melodramáticas são de um clichê juvenil.

No poema que dá título ao livro, uma criança, Violet, está curvada "fazendo a ponte sobre a grama/ sete anos de idade com dentes-de-leão apertados/ firmemente em suas mãos".

De cara, o poema empolga pelo frescor da cena. No entanto, a tradução parece atrapalhar. Indo ao original, vemos que o verso "grinning widely like a madman" virou "sorrindo exageradamente como uma louca" —o que subtrai, por exemplo, o sentido mais preciso de "arreganhar", "mostrar os dentes". Essas escolhas desajustadas seguem ao longo de toda a publicação.

Como autora de poesia, Lana Del Rey explicita referências importantes da literatura, como William Shakespeare e Sylvia Plath, citada nos versos "mantenha-se em seu caminho Sylvia Plath/ não caia como todos os outros". A gama de influências literárias na obra da cantora, aliás, é vasta e está bem sintetizada na publicação "A literatura clássica nas músicas de Lana Del Rey", no blog de Giulia Benincasa.

Em relação à dimensão sonora dos poemas, a gravação de "Violet Faz a Ponte sobre a Grama", em inglês, disponível no YouTube, reforça a sensação de que os textos na página soam incompletos. O tom confessional e a voz cadenciada de Lana recuperam parte da contundência poética das canções —que no papel resultam, muitas vezes, em um lirismo adolescente.

Neste primeiro livro da cantora, os versos clichês se alternam a outros mais originais, que deixam pistas de uma observadora sutil. Por exemplo, os versos "pisei em um pássaro/ chorei nos braços do meu novo namorado/ viver é matar".

Ainda que a edição em português preencha uma lacuna para o público brasileiro, a experiência de leitura, marcada por deslizes editoriais de revisão e tradução, é prejudicada. Os lampejos da melancolia pop de uma Lana "entediada, mas não infeliz", como poeta, chegam ao leitor com dificuldade.

Capa do livro 'Violet Faz a Ponte sobre a Grama', da cantora Lana Del Rey - Divulgação
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