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Saga dos Verissimos une Erico e Luis Fernando na casa histórica da família, em Porto Alegre

Nos 50 anos da morte de autor de 'O Tempo e o Vento', Folha reconstitui trajetórias e vai ao local que se tornou ponto de visitação e troca intelectual

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A imagem mostra um escritório com três homens. Um homem está sentado à mesa, olhando para um papel que diz

Erico Verissimo, com o filho Luis Fernando atrás de si, com o manuscrito de "O Continente", primeira parte da trilogia "O Tempo e O Vento", em 1949, quando o título ainda não havia sido invertido - Acervo Literário Erico Verissimo

Fabio Victor
Fabio Victor

Repórter especial da Folha, é autor do livro 'Poder Camuflado' (Companhia das Letras), ganhador do Prêmio Jabuti

[RESUMO] Em meio às homenagens aos 120 anos de nascimento e 50 de morte de Erico Verissimo, e às vésperas dos 90 anos de Luis Fernando, reportagem conta a história e as conexões de pai e filho, dois dos mais importantes e populares escritores brasileiros, e relata como a casa da família em Porto Alegre tornou-se um ponto turístico de formação e troca intelectual, mais um elemento da obra artística de ambos que os herdeios buscam preservar.

Mal havia começado a entrevista com os filhos de Luis Fernando Verissimo, na casa da família em Porto Alegre, quando o caçula do escritor, Pedro, pediu licença para interromper a conversa. Trazia um casal que tocou a campainha querendo conhecer o lugar onde viveu e trabalhou Erico Verissimo.

Moradores de Curitiba, Ismaile Barragan e Vivian Lie estavam de passagem pela capital gaúcha e não queriam perder a chance. Grávida de uma menina, ela e o marido contaram que, se fosse menino, chamaria-se Erico, uma homenagem ao autor de "O Tempo e O Vento", de quem são leitores e admiradores.

Ele parecia eufórico ao entrar no escritório em que Erico revisava os originais dos seus livros —escrevia-os em outro, a chamada "toca", no subsolo da casa— e onde permanecem objetos do seu acervo pessoal, como uma poltrona vermelha, uma tábua pintada por ele que servia de apoio para as revisões e uma pintura a óleo retratando Clarissa, a filha mais velha do escritor e única irmã de Luis Fernando.

A partir da esq., Pedro Verissimo (filho de Luis Fernando), os admiradores Ismaile Barragan e sua esposa, Vivian Lie, Fernanda Verissimo (filha de Luis Fernando) e Lúcia Verissimo (esposa de Luis Fernando), na casa onde viveu Erico Verissimo e onde vivem seus herdeiros, em Porto Alegre, em julho deste ano - Fabio Victor/Folhapress

De tão excitado, Ismaile derrubou uma mesinha com livros, prontamente recolhidos pelos donos da casa, que ficaram 15 minutos mostrando relíquias e contando histórias. Lúcia, esposa de Luis Fernando, e os três filhos do casal —Fernanda, 60, Mariana, 58, e Pedro, 55— faziam tudo com paciência e gentileza.

Neste 2025 que marca os 120 anos de nascimento e 50 anos da morte de Erico, os netos cumprem a missão de revigorar o legado do avô. É uma função que de certo modo coube por décadas a Luis Fernando, continuador do ofício do pai, embora de uma estirpe diferente —enquanto Erico se consagrou como romancista, o caçula dele com Mafalda construiu fama e prestígio sobretudo como cronista e humorista sofisticado.

O filho-escritor, porém, está fora de cena. Desde 2021, quando sofreu um AVC, Luis Fernando parou de escrever. As sequelas do derrame se somaram às limitações da doença de Parkinson e a outros problemas de saúde —em 2020, operou um câncer ósseo na mandíbula, com bom resultado, mas então veio o AVC.

Em setembro, o criador do Analista de Bagé, da Velhinha de Taubaté, de Ed Mort, d’As Cobras, da Família Brasil e das "Comédias da Vida Privada" completa 89 anos. Assim, os herdeiros têm a incumbência de impulsionar também a extensa obra do pai.

Plateia não falta. A reclusão não alterou a afeição dos leitores. Naquela tarde de julho, poucas horas antes do casal de Curitiba, outra dupla batera à porta dos Verissimos. A moça, moradora de Porto Alegre, guiava um amigo de Passo Fundo (RS), e dessa vez o interesse maior era por Luis Fernando. Ela lhe levou uma flor; ele, um pôster do Botafogo (time do escritor no Rio, só precedido, claro, pela paixão maior, o Internacional) e um livro, para pegar um autógrafo.

A família explicou as restrições do patriarca e os consolou com um carimbo personalizado, com o qual Luis Fernando passou a autografar no início desta década por causa dos efeitos do Parkinson, um pequeno autorretrato dele sob o trocadilho: "Um abraço com carimbo do Luis Fernando".

Mesmo tão frequentes, as visitas não parecem aborrecer os Verissimos. É assim há décadas. A casa da família na rua Felipe de Oliveira, nas colinas do bairro Petrópolis, em Porto Alegre, foi comprada por Erico e Mafalda no início dos anos 1940. Mudaram-se para lá em 1942, quando ele já havia publicado oito livros, entre os quais os sucessos "Clarissa" e "Olhai os Lírios do Campo", e Luis Fernando tinha seis anos.

Em 1943, com Erico acossado pela ditadura do Estado Novo e pela Igreja Católica (um padre defendeu a queima do seu romance "O Resto É Silêncio", considerado imoral), a família viajou para os Estados Unidos, onde viveu por dois anos —a convite do governo americano, ele lecionou literatura brasileira na Universidade da Califórnia em Berkeley. O pequeno Luis Fernando interrompeu o começo de uma alfabetização em português para abraçar outra, em inglês.

Por isso, aliás, é na língua de Shakespeare que saem as poucas palavras hoje pronunciadas por ele. "São coisas soltas, yeah, thank you, stop. Não chega a fazer uma frase, mas é em inglês. De vez em quando, os rapazes que ficam com ele [fisioterapeutas e enfermeiros] dizem também ‘Stop’, ‘No’, ‘Thank you, my friend'", conta Lúcia, 81 anos recém-completos, casada há 61 com o escritor.

Ela e os filhos lamentam que, pouco após o AVC, quando a situação de Luis Fernando era melhor que a atual —chegou a desenhar/rabiscar e balbuciar umas palavras—, ele não quis fazer fonoaudiologia para retomar a fala. "Foi uma pena. A impressão que dava é que ele achava que era coisa de criança", diz Lúcia.

Quando ainda articulava umas poucas frases, conta a esposa, o próprio cronista fez troça de sua notória introversão-quase-mudez. "Um dia ele chegou a dizer: ‘Eu não falava porque não queria, agora não falo porque não posso." O filho Pedro ameniza as limitações: "Ele sempre foi muito silencioso, então temos traquejo de entendê-lo mesmo sem frases completas".

Luis Fernando comunica-se principalmente com as mãos e o olhar. E dá sinais de que entende o que lhe cerca, impressionando a família. "Uma vez estávamos assistindo na TV a uma entrevista do Paulo César Pinheiro, de cuja música ele gosta muito", narra Lúcia. O compositor carioca contava ter tido a sorte de conhecer Pixinguinha: estavam num bar, e um amigo do mestre do choro comentava os malefícios do álcool.

"Achei que o Luis Fernando estava ali olhando, mas sem prestar atenção. De repente, o Paulo César contou que o Pixinguinha disse pro amigo a seguinte frase: ‘O álcool só é nocivo pra quem é mau caráter’. Ele deu uma gargalhada. Na hora certa. Ele entendeu o que o Paulo César estava falando, e vou te dizer mais: poderia até ser uma frase feita por ele."

Como ocorre desde os tempos de Erico —a neta Fernanda conta que o avô gostava de ouvir clássicos no último volume numa era pré-headphones, espalhando o som pela casa—, a rotina de Luis Fernando tem muita música. "É um grande frequentador do YouTube, onde ouve muito jazz", relata o filho Pedro, cantor e compositor. O cronista tocava sax e integrava a banda Jazz 6.

Para facilitar a locomoção, o computador dele foi transferido do escritório no subsolo (sua "toca", ao lado da do pai) para o do térreo. O cronista faz fisioterapia três vezes por semana, folheia o jornal Zero Hora pela manhã, vê TV, sobretudo notícias e futebol, "especialmente jogos do Inter ou quando tem campeonato europeu, aqueles jogos bons", diz Lúcia.

É raro encontrar filhos de pais ilustres que reproduzam à altura os feitos no mesmo campo de atuação. Luis Fernando é um desses poucos. Erico, autor de uma saga familiar que atravessa 200 anos e retrata a formação do Rio Grande do Sul (a trilogia "O Tempo e O Vento"), naturalmente ostenta mais que o filho a insígnia de clássico e tem maior identificação com o estado.

Coordenada pelo crítico Luís Augusto Fischer, professor titular de literatura brasileira da UFRGS, uma pesquisa recente via internet com 300 entrevistados (principalmente da área das letras, mas não só, e a grande maioria nascida ou residente no RS) perguntou quais os três mais importantes livros de autores gaúchos de todos os tempos.

O autor mais citado foi Erico Verissimo, com 231 menções, sendo 198 relativas a "O Tempo e O Vento" —ou ao conjunto como um todo (171) ou a "O Continente" e "Ana Terra", respectivamente o primeiro e mais popular livro da trilogia e um capítulo deste lançado à parte.

Em que pese a diferença de estilo, uma série de semelhanças une pai e filho —não somente genéticas. Em suas memórias, Erico descreve o adolescente Luis Fernando na segunda temporada da família nos EUA, entre 1953 e 1956: "(...) terminara o seu curso numa high school, aprendia a tocar saxofone com um professor (...) que parecia ter saltado das páginas de Dickens. O rapaz vivia às voltas com revistas especializadas em jazz e, interessado também em romances e ensaios de bons autores, lia às vezes até alta madrugada".

Em 1958, Luis Fernando acompanhou Erico e Mafalda numa viagem a Portugal. O pai retrata o jovem adulto: "Era ensimesmado, retraído e silencioso como eu fora na idade dele. Sua aceitação, seu amor eram-me tão necessários como o pão e o ar. Eu compreendia —e como!— que o fato de ser filho de um escritor conhecido constituía para ele uma espécie de rótulo incômodo que teria de carregar colado à pele vida em fora".

Ambos extremamente reservados, mais de ouvir que de falar, sempre preferiram se expressar por meio da escrita. "Ele até gostava de contar uma história", relembrou Luis Fernando certa vez, "que uma vez nós fomos a Cruz Alta [terra natal de Erico, a mais de 300 km da capital], só ele e eu, de trem, e que na saída da estação de Porto Alegre ele teria comentado: ‘Tá um dia bonito, né?’. E na chegada a Cruz Alta eu respondi: ‘É’."

Ao recordar o episódio, em um documentário disponível na internet, o filho dá uma rara risada e emenda: "É claro que não é verdade a história, era só para ele dar uma ideia de como eu falava pouco. Mas mostra como ele falava pouco também. Mesmo assim nossa relação era muito boa. Apesar de serem duas pessoas introvertidas, não muito falantes, nos dávamos muito bem".

No campo literário, Fischer vê dois pontos de convergência entre pai e filho. O primeiro é "um viés, digamos, anglo-saxão de texto: os dois escrevem para ser lidos, têm consciência de que estão escrevendo para o leitor".

(Desde antes das viagens aos EUA, como um dínamo da atividade editorial no país —foi conselheiro e um dos pilares da editora Globo de Porto Alegre— e um dos pioneiros da tradução literária, Erico publicou e traduziu incontáveis autores anglófonos. "Contraponto", de Aldous Huxley, foi vertido por ele para o português em 1934, e as técnicas narrativas do romance do inglês depois foram emuladas no seu "Caminhos Cruzados").

A segunda confluência, aponta Fischer, é que Erico e Luis Fernando "são excelentes caricaturistas, tanto de traço quanto de texto". "Mesmo nos romances, o Erico com três linhas bota um personagem na tua frente com nitidez. Além de ser caricaturista mesmo, de desenhar bem."

Editora de Luis Fernando na Objetiva, Daniela Duarte ressalta a capacidade que tanto ele quanto Erico têm "de te colocar muito rápido dentro da história". E observa que "são duas estrelas de primeira grandeza, o que é um negócio difícil de acontecer [numa mesma família]".

Os números falam por si. Segundo levantamento feito por Lucia Riff, agente dos Verissimos, a pedido da reportagem, Erico ultrapassa a marca de 8 milhões de exemplares vendidos e foi traduzido para 17 idiomas. Os principais best-sellers são "Olhai os Lírios do Campo", "Incidente em Antares", "Clarissa" e três volumes de "O Tempo e O Vento": "O Continente", "Um Certo Capitão Rodrigo" e "Ana Terra" (os dois últimos são capítulos do primeiro editados como livros autônomos).

Luis Fernando já vendeu mais de 5,5 milhões de livros, com traduções para sete línguas. Lideram a lista "As Mentiras que os Homens Contam", "Comédias da Vida Privada", "Comédias para Ler na Escola", "O Analista de Bagé", "Sexo na Cabeça", "Os Espiões" e "O Clube dos Anjos".

Uma vez que as efemérides em torno de Erico (os 50 anos de morte em 28 de novembro, os 120 anos de nascimento em 17 de dezembro) vêm antes da de Luis Fernando (90 anos em 26 de setembro de 2026), as celebrações ao pai também precedem as do filho.

Em outubro, a Companhia das Letras, que publica a obra de Erico desde 2004, lança, pelo selo Quadrinhos na Cia, uma versão em HQ de "Incidente em Antares", com roteiro de Rafael Scavone, arte de Olavo Costa e cores de Mariane Gusmão.

Exemplar do realismo mágico nacional, o romance lançado em 1971, no período mais violento da ditadura, é uma alegoria política crítica ao autoritarismo. Mostra o impacto de uma greve de coveiros numa cidade fictícia —uma história de zumbis avant la lettre. Em 2023, já ganhara uma edição especial coordenada por Sérgio Rodrigues. A adaptação no prelo se beneficia do fato de que, nas palavras do editor Emílio Fraia, "talvez não exista na literatura brasileira um romance mais perfeito para ser desbravado em quadrinhos".

A imagem apresenta um retrato de grupo com oito pessoas dispostas em duas fileiras. Na fileira de trás, estão quatro homens e uma mulher, enquanto na fileira da frente, há um homem sentado, uma mulher ao seu lado e uma mulher idosa no centro. O fundo é amarelo, e as figuras têm um estilo artístico que remete a ilustrações antigas, com traços marcantes e expressões variadas.
Imagem da versão em HQ do romance Incidente em Antares, de Erico Verissimo, com roteiro de Rafael Scavone, arte de Olavo Costa e cores de Mariane Gusmão, que sairá em outubro de 2025 pela Companhia das Letras - Divulgação

Também neste semestre, sairão novas edições de "Ana Terra" e "Noite", com posfácios de Morgana Kretzmann e Ana Paula Maia, respectivamente.

Sobre o primeiro, comenta a editora e poeta Alice Sant’Anna, responsável pela obra de Erico na Companhia: "É uma história que se passa no século 18, mas sua atualidade surpreende. Fala sobre uma família muito machista, como era o padrão da época, e sobre essa mulher que arruma uma força descomunal para fazer uma nova trajetória".

A editora diz que, até o final do ano, deverá reimprimir títulos da coleção de Erico hoje indisponíveis para venda, como "O Senhor Embaixador", "Gato Preto em Campo de Neve", "Solo de Clarineta Vol 1" e "O Resto É Silêncio", entre outros.

Para o ano que vem, o artista visual Eloar Guazzelli, craque em adaptar clássicos da literatura para HQ, prepara uma versão de "O Tempo e o Vento" no formato.

A imagem apresenta uma ilustração em preto e branco com um estilo artístico expressivo. À esquerda, há uma figura humana em um ambiente interno, possivelmente uma sala, com sombras e luzes contrastantes. No centro, uma silhueta de uma pessoa se destaca em uma porta iluminada, enquanto à direita, um homem com uma expressão intensa observa. O fundo é predominantemente escuro, criando um clima de mistério.
Desenho de Eloar Guazzelli para a versão em HQ da trilogia O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo, ainda sem data de publicação - Divulgação

Luís Augusto Fischer prepara uma edição da revista digital Parêntese dedicada a Erico, e o Sarau Elétrico, do qual é coorganizador, promoveu em julho a noite Verissimos, com leituras de trechos do pai e dos filho por integrantes da família.

Neste mês, o Sesc-RS inaugurou, na Feira do Livro de Santa Cruz do Sul, um circuito de leituras, debates e exposições em homenagem a Erico, que até dezembro passará também por Cruz Alta, Bento Gonçalves, Uruguaiana e outras. Um dos destaques da programação é uma palestra de Fernanda Verissimo, historiadora, tradutora e jornalista, sobre o avô.

Como Luis Fernando, Lúcia e os filhos moraram a maior parte da vida na mesma casa de Erico e Mafalda, a neta primogênita guarda muita memória da convivência com o avô, e agora encabeça com os irmãos os esforços para disseminar ainda mais a obra dele, com prioridade para a ampliação do Acervo Literário Erico Verissimo —cuja maior parte está abrigada, em regime de comodato, no Instituto Moreira Salles— e projetos educativos.

Embora, como apontou Fischer, o sucesso de público tenha restringido o prestígio de Erico no ambiente acadêmico brasileiro, o autor segue sendo tema de pesquisas aqui e alhures. Na Universidade Harvard (EUA), onde fez doutorado em história e literatura neolatinas, a brasileira Maria Gatti acessou documentos inéditos do governo americano que mostram como Erico foi investigado pelo FBI em dois dos seus três períodos no país.

Trata-se de um dos temas mais sensíveis em relação ao autor, cuja posição política sempre despertou paixões à direita e à esquerda.

Apesar de Erico ser identificado por esquerdistas como alinhado aos EUA, a pesquisa de Gatti mostra que ele "representou um desafio interpretativo [ao serviço de inteligência americano], como um pacifista que defendia a guerra, um crítico do capitalismo e da União Soviética, e um autor preocupado com a influência excessiva da cultura americana no Brasil e com a influência insuficiente da cultura americana no Brasil".

Um informe do FBI registrou que o romance "O Resto É Silêncio" poderia conter material antiamericano. A desconfiança dos gringos foi alimentada pela polícia do Estado Novo, para quem Erico era comunista.

"É justo a ambiguidade política do Erico Verissimo que leva a uma investigação tão sofisticada da obra dele no FBI, enquanto não precisavam de tanta leitura para interpretar autores abertamente comunistas ou antiamericanos", afirma Gatti.

Sua pesquisa trouxe à luz duas cartas de Erico a Ralph Dimmick, que o sucedeu como diretor do Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana em Washington. A primeira foi enviada em 1º de abril de 1964, quando se consumou o golpe militar, mas o brasileiro ainda não tinha certeza disso. "Aqui estamos, a caminho da República Sindicalista de Jango Goulart, esse sinistro aprendiz-de-Getúlio. Não se sabe o que vai acontecer nos próximos vinte minutos. Tudo é possível, inclusive algo de bom."

Na segunda, em 2 de janeiro de 1969, pouco após o AI-5, Erico se mostra desiludido. "Pelo que se vê, não verei mais democracia durante o tempo que me resta de vida, nem mesmo aquela paródia que sempre temos representado desde que mandaram o velho Pedro 2º para o exílio. Que fazer?"

Embora ao longo da vida tenha sempre se posicionado publicamente contra tiranias de direita e de esquerda, o rótulo de algo complacente com a ditadura impingido a Erico sobrevive até hoje. Foi ressuscitado em reportagem recente da Agência Pública sobre escritores e editoras que apoiaram o regime militar.

No caso dele, a associação se deve a informações do livro "O Segredo das Senhoras Americanas" (Editora Unesp), de Marcelo Ridenti, professor titular de sociologia da Unicamp. Erico esteve no ato de fundação da Associação Brasileira do CLC (Congresso pela Liberdade da Cultura) —contraponto americano/ocidental ao Conselho Mundial da Paz, patrocinado pelos soviéticos—, em abril de 1958, e integrou o Conselho Consultivo dos Cadernos Brasileiros, publicação da entidade.

Numa carta enviada a um interlocutor identificado como Luderitz [possivelmente Ramos, parente de Cruz Alta], o escritor afirma, em março de 1965: "Continuo confiando no nosso Castelinho [Castello Branco, primeiro general-ditador], que tive o prazer de conhecer em Poços de Caldas, quando coronel. Mas às vezes acontecem coisas que me revoltam e eu tenho de soltar um protesto, muito embora sabendo —e como!— que já estaríamos todos mortos e enterrados se o Brizola tivesse ganho a parada".

Quatro anos depois, em abril de 1969, escreve ao mesmo destinatário que "seria muito pior se tivéssemos uma ditadura da esquerda extremista. Ou a volta do Jango e do Brizola, mas que diabo!, entre o preto e o branco existem muitas outras cores. O que mais me assusta é o ‘terror cultural’ (…). Mas se houvesse habilidade ou, melhor, justiça, bom senso, eles deixariam em paz o setor cultural. É uma estupidez equiparar crítica construtiva com subversão. Estou desolado. Considero-me no exílio. Todo mundo anda amedrontado, sem saber o que lhe vai acontecer amanhã".

Para Ridenti, Erico "era um liberal muito crítico de Vargas e seus herdeiros, que considerava antidemocráticos". "Não esperava que o golpe de 64 levaria a uma ditadura. Publicamente, creio que apareceu mais como crítico da ditadura, pois em diferentes momentos assinou manifestos contra a perseguição a intelectuais. E escreveu 'Incidente em Antares'. Mas em privado aparece o apoio a Castello Branco", comenta.

Na avaliação de Maria Gatti, "história é mudança no tempo. História intelectual também, claro, e caminha às vezes em compassos diferentes do resto dos ‘eventos históricos’ mais concretos. Fernand Braudel nos ensina isso… A geração do Erico, que vai de uma ditadura a outra, se remexe bastante naquelas duas décadas, quer dizer, muda de ideia, com as mudanças do tempo. Pelo menos os mais inteligentes (e menos orgulhosos)".

De fato, a partir de 1970, Erico amplifica os sinais de repulsa à ditadura, assinando manifestos contra a censura —o que o reaproxima do grande amigo comunista Jorge Amado, cujo viés não impediu uma troca afetiva e epistolar por décadas— e recusando o título de doutor honoris causa concedido pela UFRGS em protesto a perseguição de alunos e professores.

Em vez do "liberal" usado por analistas como Ridenti, Erico definia-se como um "socialista democrático" ou alguém "dentro do campo do humanismo socialista, mas —note-se— voluntariamente, e não como um prisioneiro".

Considerava que "Stálin e em certos casos até mesmo Lênin deturparam as teorias de Karl Marx" e que "a dialética marxista é inseparável de seu humanismo. Segundo Marx, uma sociedade não pode ser livre se todos os indivíduos que a compõem não forem também livres".

Em conferência nos EUA em 1955, quando era diretor da União Pan-Americana, explicitou sua oposição ao capitalismo como modelo às nações pobres do continente. "Penso que seria um triste erro fazer nossos países seguirem a trilha dos Estados Unidos [...]. Espero que um dia possamos alcançar um tipo de socialismo cristão moderado, pleno de liberdade social. Para esse fim, é necessário que os raros felizes desistam daquilo que constitui luxo, para que a maioria possa ter o essencial."

E aconselhou: "A primeira coisa que devem entender é que precisam pensar duas vezes antes de chamar um homem de Vermelho. Muitos intelectuais em nossos países foram rotulados de comunistas porque desejam proporcionar uma vida melhor aos menos favorecidos, porque falaram ou escreveram contra a ditadura e a opressão em seus países ou contra a pressão de trustes estrangeiros. Os senhores precisam esquecer as vantagens imediatas e aprender quem são seus verdadeiros amigos".

De todo modo, é quase certo que a temperança política tenha afetado a avaliação crítica da obra de Erico, assim como a condição de best-seller e sua vocação de "contador de histórias", expressão que ele mesmo usava para se subestimar.

Considerava medíocres os romances da sua primeira fase ("escritos apenas em tarde de sábado") e reconhecia que o que veio a partir de "O Tempo e O Vento/O Continente", publicado em 1949, era "bastante melhor, mas, que diabo!, pouca gente [...] se dá ao trabalho de revisar opiniões antigas e alheias".

É quase unânime que a saga da família Terra Cambará, uma das influências de García Márquez para escrever "Cem Anos de Solidão", é a obra-prima de Erico. Antonio Candido, patrono dos críticos brasileiros, opinou que "O Continente" "é um dos grandes romances da literatura brasileira".

As novidades quanto a Luis Fernando começam com o lançamento, até o final do ano, de uma antologia das "Comédias da Vida Privada", com crônicas selecionadas de três volumes anteriores, dois deles hoje fora de catálogo.

No prefácio à nova edição, o cineasta Jorge Furtado, que em 1994 adaptou algumas dessas histórias para uma série de TV e criou o nome hoje consagrado, escreve que Luis Fernando é seu escritor brasileiro favorito, pois nenhum outro ("incluindo Machado de Assis, Guimarães Rosa ou Drummond") lhe proporcionou tanto prazer na leitura e o elogia como "um dos maiores dialoguistas" que conhece, "ao lado de Harold Pinter, Nelson Rodrigues, Rubem Fonseca, Millôr, Billy Wilder, Domingos Oliveira, Tennessee Williams".

Giulia Gam (à esq.), Cláudia Abreu e Fernanda Torres em cena da série "A Comédia da Vida Privada", episódio "Casados e Solteiros", baseada em crônicas de Luis Fernando Verissimo, em 1995 - Divulgação/Divulgação

Leitor do cronista desde a meninice em Porto Alegre, quando Luis Fernando escrevia na imprensa gaúcha, Furtado se perguntava (ainda nos anos 1970): "Como alguém podia ser, ao mesmo tempo, tão profundo e tão engraçado? Como alguém podia escrever tão bem todos os dias?".

Para o ano que vem, está programada uma seleção das crônicas mais recentes do escritor, entre o final da década passada e o início desta —ele publicou nos jornais O Globo e O Estado de S.Paulo até janeiro de 2021, quando teve o AVC. A cargo da missão, o filho Pedro também cataloga material para uma nova edição de "As Cobras", ainda sem data de publicação.

É um trabalho de formiguinha. Embora ainda haja muita coisa na casa da família, a maior parte do acervo de Luis Fernando foi transferida à Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos, no RS). Mas, segundo a família, o material está desorganizado, diferentemente do que ocorre com o de Erico no IMS.

A falta de catalogação atrapalha saber, por exemplo, se há inéditos do autor. A filha Fernanda menciona uma possível peça (uma comédia) que o pai escreveu para o ator Paulo Autran. Lúcia, a esposa, também cita uma peça, mas que teria sido escrita para Tônia Carrero ("se passava num spa, na época em que começou a moda dos spas"). Elas não sabem se são o mesmo texto nem onde estaria o original.

Seja como for, é quase certo que a peça (ou as peças) sumida(s) nasceu/nasceram na casa da rua Felipe de Oliveira. Mais do que somente o local onde foi escrita a maior parte da obra de Erico e Luis Fernando, a casa se constituiu, ao longo do tempo, em espaço de sociabilidade, formação e troca intelectual.

Dois dos principais estudiosos da obra do patriarca da família, Maria da Glória Bordini —primeira organizadora do Acervo Literário Erico Verissimo—, e Flavio Loureiro Chaves —que coordenou o segundo volume, póstumo, de "Solo de Clarineta", as memórias do romancista— chegaram a ele meio por aventura, como leitores fazem até hoje.

"Durante a minha graduação [em letras em meados dos anos 60], eu visitava a casa do Erico com um grupo de colegas e professores que tinham relações com ele", diz Bordini, professora aposentada da UFRGS e ex-professora titular da PUC-RS.

"São coisas que a gente faz quando tem 20 anos, e numa Porto Alegre dos anos 60. Eu fui lá e bati na porta: ‘Gosto muito de sua literatura e queria conhecê-lo'. E aí nos entendemos muito bem. Naquele dia saí de lá com um exemplar de 'Ana Terra' autografado por ele", contou Chaves, professor titular aposentado da UFRGS.

Os dois concordam que Erico aproveitava a interação como matéria de criação literária. "Ele não falava demais, mas observava muito os seus visitantes. Acho que, de certa maneira, se nutria da admiração que as pessoas tinham por ele e isso redundava em novos personagens, em detalhes das obras", observa Bordini.

Tábua desenhada por Erico Verissimo (usada pelo escritor como apoio para revisar originais) exposta na parede de escritório na casa da famlia, em Porto Alegre - Mateus Bruxel - 3.nov.2011/Folhapress

"Eu ficava horrorizado com aquilo, porque não sou um espécime muito sociável. [Ele dizia] 'Ah, conversar, conhecer pessoas'. Depois eu entendi que esse desfile da fauna humana alimentava a imaginação, a ficção dele", acrescenta Chaves.

Numa entrevista de Erico à sua amiga e comadre Clarice Lispector em 1967, a autora de "A Hora da Estrela" —que considerava o amigo "uma das pessoas mais gostáveis" que conheceu na vida— lhe perguntou: "Como é que você se dá com a fama? Eu soube que o ônibus de turistas em Porto Alegre tem como parte do programa mostrar sua casa".

"Essa história do ônibus me encabula muito. Mas eu cultivo a virtude da paciência. E detesto decepcionar os que me procuram", respondeu Erico.

"Minha casa vive de portas abertas. Há noites em que temos de 10 a 20 visitantes inesperados. Todas as semanas recebo dezenas de estudantes que querem entrevistar-me [...]. Pessoas com casos sentimentais me procuram para desabafar. Empresto-lhes o ouvido, o olho, e não raro uma afetuosa atenção. Frequentemente consigo ajudar realmente um ou outro ‘paciente’. E isso me alegra."

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