Priscilla Bacalhau

Doutora em economia, consultora de impacto social e pesquisadora do FGV EESP CLEAR, que auxilia os governos do Brasil e da África lusófona na agenda de monitoramento e avaliação de políticas

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Das lacunas à aprendizagem

O excesso de avaliações pode ser desafiador, mas sem isso não há como garantir a educação com equidade

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Com metade do ano letivo concluído, enquanto estudantes aproveitam as férias, professores em todo o país precisam se preparar para o retorno às aulas. É o momento de revisar o que foi aprendido até agora, identificar lacunas e definir prioridades para o segundo semestre. Esse esforço é essencial diante do cenário preocupante da educação brasileira, marcado por resultados insatisfatórios em diversas avaliações nacionais.

Em termos de leitura, por exemplo, dados recentes divulgados pelo Inep indicam que menos de 60% dos alunos do 2º ano do ensino fundamental concluíram o ano de 2024 alfabetizados. No ensino médio, menos de um terço dos concluintes atingiram o nível adequado em português, segundo o Saeb de 2023 para escolas públicas. Em matemática o cenário é ainda mais devastador: só 5% dos adolescentes chegam ao final da educação básica com aprendizado adequado.

A imagem mostra uma sala de aula com estudantes sentados em carteiras. Um menino de cabelo curto, usando uma camiseta branca, está concentrado escrevendo em um caderno. À sua frente, há uma mochila rosa e uma câmera. Ao fundo, uma lousa branca com texto escrito. Outros alunos também estão visíveis, mas apenas a parte de trás de suas cabeças é visível.
Alunos em sala de aula na EMEF Padre Serafin Martinez Gutierrez na zona leste de São Paulo - Zanone Fraissat/Folhapress

Essas defasagens são resultado do acúmulo de lacunas ao longo da trajetória escolar. Um estudante que não domina o sistema de numeração decimal nos anos iniciais do ensino fundamental dificilmente compreenderá frações nos anos finais, muito menos realizará cálculo de probabilidades no ensino médio. O mesmo vale para a leitura: não é possível interpretar criticamente textos complexos sem ter desenvolvido habilidades básicas de leitura nos primeiros anos de sua escolarização.

Esses desafios exigem decisões pedagógicas criteriosas e estratégicas. O professor precisa escolher o que priorizar para garantir que os alunos aprendam o essencial. O acúmulo de defasagens de habilidades não desenvolvidas ao longo dos anos impacta diretamente a possibilidade de os alunos aprenderem o que é esperado em determinado ano.

Além das dificuldades históricas, os últimos anos foram marcados por suspensões prolongadas de aulas, em especial durante a pandemia de Covid-19, mas também em casos de eventos climáticos extremos. Casos de violência nas escolas também atrapalham o processo de ensino e aprendizagem e agravam ainda mais os atrasos educacionais.

Por isso, é preciso se preparar para uma recomposição efetiva das aprendizagens. Nesse contexto, a avaliação regular é uma ferramenta indispensável. Conhecer o nível de aprendizagem de cada aluno permite elaborar estratégias mais eficazes e individualizadas para sua progressão. Para professores, o excesso de avaliações pode ser desafiador, mas sem isso não há como garantir a educação com equidade.

Após o diagnóstico, o próximo passo é definir prioridades com base nas habilidades estruturantes. Essa priorização deve ser pensada com base nas necessidades de cada turma, escola e rede de ensino. O governo federal, por sua vez, elaborou guias para apoiar essa reorganização curricular e o uso estratégico das avaliações. Dessa forma, busca-se apoiar redes e escolas na priorização do currículo e no enfrentamento das defasagens educacionais, usando a avaliação como aliada nesse processo.

A recomposição das aprendizagens só será possível com o esforço conjunto de professores, escolas, redes de ensino e governos. É um trabalho que não recai apenas em professores: é coletivo, necessário e urgente para garantir que todos os estudantes avancem, com equidade e qualidade.

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