No liame da memória, "Parar para Pensar" (Bazar do Tempo) é um título que nos chega como uma convocação, para quem viveu, desde aquele longínquo dezembro de 2019, o novo, o desconhecido, o medo, a descoberta, o luto e, sobretudo, o excesso de luto.
Quem carrega as sequelas, seja pela Covid longa, entidade clínica já reconhecida como doença, seja pela ruptura de ritos tradicionais em nossa cultura, desde o isolamento radical em casas por longo período, conhece bem como foi esse viver até a elaboração do luto violentada, que se seguiu à morte invisível, e de que, hoje, revelamos ou negamos as cicatrizes.
Pedro Duarte, ao evocar tantas vivências e a negação desse tempo em sua intensidade, desconstrói a singularidade da pandemia à luz de seus diálogos com uma plêiade de filósofos vivos e mortos e até seu impacto social, para o qual não havia qualquer preparo, mesmo nas mais diferentes regiões e culturas.
Seu registro, sob o olhar de um filósofo e em conjunção com a leitura e com diálogos imaginários com filósofos de nossa contemporaneidade, nos faz mesmo parar para pensar, à vera, o que foi o tempo da pandemia, esse a que hoje muitos se referem como "naquele tempo", como se estivessem a falar da gripe espanhola de há mais de século, em uma quase negação do fenômeno biológico, ecológico e social que verdadeiramente marca o início deste século 21.
O autor resgata essa dimensão histórica assim, como um testemunho de quem viveu atentamente esse tempo, e rompe uma espécie de pacto implícito de silêncio sobre dias tão recentes e em rejeição sobre qualquer perspectiva, por mais real que possa ser —e o é—, de novas epidemias ou sobre a chance de 48% de haver uma pandemia com ao menos 1 milhão de mortes nos próximos dez anos.
Entre a perplexidade, a qual precisou-se vencer por força das adaptações que o momento exigia, vale registrar, entre outros, José Gil, o filósofo português-moçambicano que muito pouco deve à tradição filosófica da escola portuguesa, ele que fez sua formação em Paris mesmerizado pelas aulas de Gilles Deleuze. Fez do corpo o centro de sua reflexão, como uma instância transcendental, seja na apreensão de sensações, no condicionamento da percepção e ainda na pura subjetividade, razão pela qual entendeu bem a violentação de nossos hábitos e a ruptura radical da despedida no isolamento da Covid-19.
Ou Bruno Latour, que, como muitos, acreditou em um novo conhecimento adquirido pelas exigências deste Antropoceno, a pedir uma revisão profunda nesse processo civilizatório em franca regressão. O olhar crítico da obra de Duarte sobre o equívoco prognóstico propugnado por Giorgio Agamben —o filósofo italiano que minimizou a magnitude da epidemia, inclusive em texto de 2020 ("A invenção de uma epidemia")— se fundamenta em outras manifestações, mais realistas e históricas.
Há muito, sabemos que epidemias marcam a história do homem e geram fenômenos sociais e culturais na tessitura dos dois últimos milênios. O pensar pedido por Duarte nos faz perguntas como se a Covid-19 teria sido uma nova forma de sofrimento da contemporaneidade. Ainda que negado, é de fato um fenômeno demarcador das nossas vidas, como olhar o futuro que se nos chegou, na velocidade digital para uns, analógica para muitos, desigual em diferentes gerações e culturas.
Erramos ao idealizar como pensar em um "novo normal" mais fraterno. Multiplicam-se os conflitos e reacendem-se ódios, proliferando como epidemias.
Sim, viver é perigoso, e exige coragem, como disse Guimarães Rosa, muito bem citado em "Parar para Pensar". Em outras palavras, medo e coragem não precisam ser necessariamente opostos, e essa intrigante questão, à luz desse recuo histórico de cinco anos, torna essa leitura que, mais do que, a rigor, interessaria aos iniciados em filosofia apenas, encantadora e necessária.
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