A conclusão do ensino médio ainda é um desafio no Brasil. Na média, um em cada três estudantes abandona a escola antes de terminar. Os dados médios, no entanto, escondem desigualdades: jovens negros, pobres, e de certas regiões enfrentam condições mais desfavoráveis. A baixa escolaridade representa tanto um sintoma quanto um fator que perpetua a exclusão social e econômica, limitando o crescimento do país.
A evasão escolar é multifatorial. Vai muito além da sala de aula. Falta de interesse, necessidade de trabalhar, responsabilidades domésticas, gravidez precoce, repetência e defasagem escolar, currículo desconectado da realidade dos jovens e ausência de orientação vocacional formam um emaranhado de obstáculos. Para muitos, a escola simplesmente não faz sentido. E para outros, mesmo que faça, a sobrevivência fala mais alto.
Dados da PNAD 2024 (IBGE) mostram que a principal razão alegada para o abandono escolar das pessoas de 15 a 29 anos é a necessidade de trabalhar. Essa é a realidade para quase metade dos jovens brasileiros que não completaram o ensino médio e não frequentam escola. Já a falta de interesse figura em segundo lugar, sendo mencionada por um quarto dos jovens como o principal motivo.
Parte dessa desmotivação decorre da percepção de que o currículo escolar está pouco conectado com a realidade dos jovens. Apenas uma pequena parcela dos alunos está matriculada em itinerários técnicos, e muitos não veem relação entre o que aprendem na escola e as oportunidades de trabalho disponíveis no mercado.
Além disso, cada ano de repetência faz com que os alunos acumulem defasagens e aumenta o risco de abandono. Esses problemas começam cedo: mais de 40% das crianças do segundo ano do ensino fundamental não estão alfabetizadas. Essa lacuna inicial tende a se ampliar ao longo dos anos, criando barreiras cumulativas à permanência escolar.
Diante dessa complexidade, é preciso investir em soluções que ataquem as causas da evasão de forma integrada. Ações pontuais não são suficientes. Apoiar trajetórias escolares regulares significa ampliar o uso de intervenções já comprovadas para reduzir a evasão e aumentar o engajamento. É necessário oferecer incentivos aos estudantes, como o Pé-de-Meia, fortalecer programas de tutoria e adotar sistemas de alerta precoce.
O que se aprende na escola precisa fazer sentido para a vida dos jovens. Isso implica ampliar os itinerários técnicos e profissionais, tornar os currículos mais conectados com a realidade e as aspirações dos estudantes e oferecer oportunidades concretas de formação que abram portas para o futuro.
A intervenção no momento certo pode ser decisiva para que o estudante permaneça na escola. As escolas precisam se consolidar como espaços de pertencimento, significado e oportunidade. Acima de tudo, é preciso garantir que as estratégias sejam equitativas e voltadas para os grupos mais marginalizados, oferecendo estruturas de apoio específicas para estudantes em maior risco de exclusão.
Não existe solução única. Mas existe um caminho: uma agenda coesa e equitativa, baseada em evidências e inovação, e com a inclusão como princípio orientador de todas as ações.
Comentários
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.